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Fruto do Espírito – Longanimidade

Longanimidade não é uma palavra muito usual. Sugere ter ânimo prolongado, não desistir facilmente e é correto entender assim. Os sinônimos mais comuns são tolerância e paciência, inclusive em algumas versões mais recentes encontramos a palavra paciência em lugar longanimidade.

A paciência, como os demais aspectos do fruto do Espírito, é uma das características do próprio Deus (Nm 14.18; Sl 145.8) e ai de nós se assim não fosse (2 Pe 3.9). Comparando o texto de Gl 5.22 com 1 Co 13.4, entendemos que Paulo fala do mesmo tipo de paciência, logo, não se trata de esperar até que um desejo ou projeto nosso seja realizado, mas ser paciente com os que nos cercam, sobretudo no que diz respeito a não se irar (Tg 1.19), não desistir de ensinar (2 Tm 4.1,2) e suportar as situações que a vida nos impõem, entendendo que tudo aqui é passageiro e não dura mais que um breve momento (2 Co 4.16-18).

É curioso notar que estudiosos dizem que a palavra grega makrothumia usada por Paulo em Gl 5.22 não fazia parte do vocabulário grego antigo e clássico, logo podemos dizer que foi crida pelo cristianismo para expressar uma virtude unicamente cristã e mais tarde absorvida pela cultura grega. Ela aparece com frequência nos textos de Paulo, Pedro e Tiago. É uma paciência que vai muito além da compreenção deste mundo. Essa paciência nos leva a suportar as afrontas, calúnias e perseguições dos que nos rodeiam. Nos dá a condição de “engolir sapos”. Com isso podemos ser chamados de covardes ou acomodados, mas a Bíblia chama aos que assim procedem de entendidos (Pv 14.29). Não é fácil pois exige abrir mão da razão que se tem. João Crisóstomo, que foi bispo em Constantinopla entre os séculos IV e V, definiu como longânimo aquela pessoa que poderia se vingar mas não o faz. No entanto isso não quer dizer que o cristão não possa reagir, contanto que não peque (Ef 4.26), ter “animo longo” não é o mesmo que interminável, até a longanimidade do Senhor tem limites.

Em Rm 5.3 Paulo ensina que a paciência é produzida pelas tribulações e que a mesma paciência produz experiência com Deus. Essa é no mínimo uma afirmação incomum para aqueles que não foram alcançados ainda pela graça porque a tribulação produz naturalmente impaciência, murmuração e incredulidade, mas para aqueles que servem a Cristo é a oportunidade que o Espírito tem para moldar nosso carater.  Ninguém deseje ser atribulado, mas quando somos e vencemos as tribulações em Cristo nos tornamos mais íntimos de Deus e, portanto, mais semelhantes a Ele. Charles Spurgeon, pregador batista do século XIX chamado de príncipes dos pregadores, em uma pregação sobre esse texto de Romanos orou dizendo “que eu receba graça para permitir que as tribulações me abençoem! Por que deverei eu retardar as suas realizações graciosas? Senhor, peço-Te que removas a minha aflição, porém Te suplico dez vezes mais que retires a minha impaciência. Ó precioso Senhor Jesus, com teu sofrimento grava em meu coração a imagem de tua paciência.

Essa experiência gerada pela paciência nos mostra um aspecto ainda mais singular sobre que é a capacidade de resistir a uma sutil mas poderosa investida do adversário. Ensinando sobre Cl 1.9-12, Lutero dizia que ao ver que infligir sofrimento não causa resultado, o diabo usa a demora como arma para abafar nossa fé e extinguir nossa esperança. Se não formos longânimos em nossa paciência certamente naufragaremos na fé, mas se resistirmos firme alcançaremos o prêmio da nossa sublime vocação.

Nossa paciência, e também a falta dela, pode facilmente ser percebida através do tratamento que damos as pessoas que nos cercam, assim outro meio para desenvolve-la suportarmos uns aos outros, lembrando que todos temos defeitos (Lm 3.22,39; Rm 3.23) e que devemos fazer aos outros o que queremos que nos façam (Lc 6.31). Desenvolver nossa paciência exige manter em mente duas verdades: que todos somos falhos e alcançamos graus diferentes de maturidade espiritual e que o Senhor está no controle de todos os eventos de nossas vidas. Sendo assim, podemos exercitar nossa paciência escolhendo não se irritar com as pessoas, por mais que elas nos contrariem. Experimente passar um dia sem levantar a voz, sem discutir, sem murmurar, nem franzir a testa ou ranger os dentes, e não por simples aparência exterior, mas por convicção naqueles dois princípios no homem interior: todos erramos e Deus está no controle. Difícil? Imagine então para Deus, que é longânimo para com todos!

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