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Assembleia de Deus: muito mais que usos e costumes

Apenas conhecendo de onde viemos seremos capazes de entender de fato quem somos e porque o somos. Sem isso não é possível avançarmos porque, como aquele que em círculos persegue a própria sombra, nunca seguiremos adiante. Embora nossa herança histórica não define quem seremos, diz muito de quem somos e do que podemos realizar e estas não são informações que devam ser ignoradas seja num processo resgate de identidade, de sua manutenção ou mudança. Na verdade, a igreja no Brasil passa por uma grave crise de identidade exatamente porque nas últimas décadas as denominações evangélicas vem falhando em cunhar em seus membros a imagem de Cristo, que é e sempre deve ser nossa referência, nosso padrão, e isso por desprezar a sua história e se aventurar por caminhos desconhecidos e ideias humanas alienadas das verdades do Evangelho. 

Breve histórico das Assembleias de Deus 

Se cheguei até aqui foi porque me apoiei no ombro dos gigantes.
Isaac Newton

Não saber o que aconteceu antes do teu nascimento seria para ti a mesma coisa que permanecer criança para sempre.
Cícero

Não há como entender as Assembleias de Deus sem conhecer pelo menos a historia recente do Movimento Pentecostal. O Espírito Santo, propulsor do Movimento Pentecostal, nunca ficou sem se manifestar na Igreja, mesmo que em alguns períodos suas manifestações fossem menos abundantes que em outros. No final do século XVIII houve um grande interesse na Igreja em receber o poder prometido por Jesus o que levou ao surgimento de vários grupos que começaram a buscar esta benção. Historicamente atribui-se o início do Movimento Pentecostal moderno a Charles Fox Parham, pastor metodista norte-americano que influenciado por um movimento chamado Holiness (Santidade) cria o movimento chamado “Missão da Fé Apostólica” que congregava várias igrejas independentes que criam no batismo com Espírito Santo e com fogo e na cura divina. Enquanto o movimento Holiness tinha seu foco na santificação, a Fé Apostólica privilegiava o Poder do Espírito Santo, e isso ficava bem evidente em suas reuniões, que eram dominadas por oração, testemunhos, cânticos e espontaneidade, não seguindo a um programa, o que contrariava em muito a liturgia da época. Um dos discípulos de Parham foi William Joseph Seymour, pastor da conhecida igreja da rua Azusa que tornou ainda mais conhecido o movimento pentecostal a partir de 1906.

Estes não foram eventos isolados, nem tão pouco o reavivamento aconteceu exclusivamente nos Estados Unidos. Entre 1904 e 1905 houve um poderoso avivamento no País de Gales através da pregação de Evan Roberts, pastor metodista.

A chama pentecostal que se alastrava pelo mundo chega ao Brasil em 1910 através do missionário Louis Francescon, que funda a Congregação Cristã do Brasil, e logo em seguida pelos missionários Daniel Berg e Gunnar Vingren, que fundam a Assembleia de Deus brasileira, que inicialmente chamou-se de Missão da Fé Apostólica por identificar-se com o movimento iniciado por Parham.

A disseminação da doutrina pentecostal continua, e em 1914 acontece nos Estados Unidos o primeiro concílio contando com a presença de 300 pastores e leigos de vários estados norte-americanos e alguns países para discutir sobre os rumos do movimento pentecostal e a cooperação entre as lideranças. Desta reunião emergem as Assembleias de Deus Norte-americanas, que, entre outras disposições, especifica um conjunto de crenças fundamentais para todas as igrejas que aderissem a esta denominação. Em 1918 a Missão da Fé Apostólica brasileira passa a adotar também o nome de Assembleia de Deus, seguindo o que já estava sendo feito em outros países.

Desde a sua fundação a Assembleia de Deus no Brasil teve grande apego com a obra missionária e já em 1913 havia enviado um missionário para Portugal e em 1925 estava presente em vários estados brasileiros. O crescimento e estruturação das Assembleias de Deus no Brasil se deu de forma diferente da Americana, mas o resultado não foi muito diferente. Lá, bem como em outras partes do mundo, não houve um fundador do qual a denominação se desenvolvesse, mas um grupo de igrejas autônomas que guardavam certas afinidades e crenças em comum, por isso o uso de Assembleias no plural, fazendo referencia a esta autonomia. Embora aqui o movimento tenha se desenvolvido através do trabalho de dois missionários, as várias lideranças regionais gozavam de autonomia administrativa, o que fez com que cada igreja desenvolvesse sua própria identidade. Isso poderia não parecer ruim, mas acabava por permitir que cada líder estabelecesse suas próprias doutrinas, transformando a denominação em um ajuntamento de igrejas com poucos vínculos entre si, além de um passado comum. Por isso hoje temos igrejas que usam o nome de Assembleia de Deus, mas sequer compartilham dos mesmos rudimentos da fé. Mesmo existindo um órgão regulador, que é a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil – CGADB, ela apenas sugere e não determina o que cada líder pode ou não fazer porque não tem autoridade alguma sobre as igrejas e tem muito pouca sobre os ministros. Isso fica claro nos vários episódios em que ministros desligados ou insatisfeitos criam suas próprias convenções, dos quais o mais triste foi a criação em 1989 da Convenção Nacional das Assembleias de Deus – CONAMAD, pelo pastor Manoel Ferreira, então presidente da Assembleia de Deus em Madureira, e o mais recente em 2010, a Assembleia de Deus Vitoria em Cristo, pelo pastor Silas Malafaia, então presidente da Assembleia de Deus da Penha. O crescimento no número de templos também reflete esta discordância com lideranças já estabelecidas. Antes o surgimento de novas congregações era resultado do processo de evangelização num esforço de levar a mensagem de Cristo aqueles que nunca tiveram a oportunidade de ouvi-la e compreendê-la, no entanto o que vemos hoje é o esforço de alguns em se autopromoverem e alcançarem a estabilidade financeira as custas da boa fé do povo.

Observando a evolução histórica das Assembleias de Deus no Brasil e no mundo fica fácil compreender as diferenças, por vezes gritantes, entre as igrejas que a compõem. Se cada igreja é autônoma, mantendo apenas um vinculo histórico e de confissão de fé com as demais, cada pastor determina livremente sobre qualquer questão referente aos rumos da igreja que ele apascenta, não sendo mais possível comparar duas igrejas que se denominam Assembleia de Deus porque as diferenças são tantas que acabar-se-ia por concluir que seriam igrejas totalmente distintas. Isto responde, num primeiro momento, a pergunta “por que ali pode e aqui não pode?”, que cada vez se torna mais frequente em nosso meio, e deve gerar um novo questionamento, que é “se somos tão diferentes, somos todos Assembleias de Deus?

Confissão de fénossas crenças e valores

Não tem crença quem não vive de acordo com a sua crença.
Thomas Fuller

No que é fácil crer, não vale a pena crer.
Émile-Auguste Chartier

Quem uma pessoa ou instituição é resulta de seu conjunto de memórias, crenças e valores. Estes elementos estão intimamente ligados e constituem as bases da nossa personalidade. As memórias são nossas lembranças, contam nossa história. Além de simples fatos, guardam também as cargas emocionais associadas a elas. As crenças são convicções profundas e sem a necessidade de justificativas racionais, geralmente fruto de nossas experiências. São interpretações subjetivas da realidade, logo pessoais, que nos levam a considerar algo como certo ou verdadeiro. Estas crenças nos levam a atribuir importância ou significado, aos eventos e elementos que nos cercam em maior ou menor grau. Nossas memórias alimentam nossas crenças que alimentam nossos valores que determinam nossas ações.

As Assembleias de Deus compõem uma denominação evangélica e como tal obedecem as doutrinas apostólicas fundamentais, bem como aos ensinos dos chamados pais da igreja, que foram pastores e bispos dos primeiros séculos da era cristã e continuaram o trabalho dos apóstolos. Para alguém se dizer membro das Assembleias de Deus ou uma igreja ser considerada parte dela os tais devem assumir para si esse conjunto mínimo de crenças e valores, definidos pela sua confissão de fé, que são os princípios fundamentais e inegociáveis da fé. Atualmente nossa confissão consiste em crer:

  • Em um só Deus, eternamente subsistente em três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo;
  • Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão;
  • Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal dentre os mortos e sua ascensão vitoriosa aos céus;
  • Na pecaminosidade do homem que o destituiu da glória de Deus, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode restaurar a Deus;
  • Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus;
  • No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor;
  • No batismo bíblico efetuado por imersão do corpo inteiro uma só vez em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo;
  • Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus no Calvário, através do poder regenerador, inspirador e santificador do Espírito Santo, que nos capacita a viver como fiéis testemunhas do poder de Cristo;
  • No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo, com a evidência inicial de falar em outras línguas, conforme a sua vontade;
  • Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme sua soberana vontade;
  • Na Segunda Vinda premilenial de Cristo, em duas fases distintas. Primeira — invisível ao mundo, para arrebatar a sua Igreja fiel da terra, antes da Grande Tribulação; segunda — visível e corporal, com sua Igreja glorificada, para reinar sobre o mundo durante mil anos;
  • Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo, para receber a recompensa dos seus feitos em favor da causa de Cristo na terra;
  • No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis;
  • E na vida eterna de gozo e felicidade para os fiéis e de tristeza e tormento para os infiéis

Para exemplificar a aplicação destes princípios, não pode haver cooperação alguma entre assembleanos e adventistas, uma vez que para nós a Bíblia é a única regra de fé e prática do cristão, enquanto que para os adventistas todos os escritos de Ellen G. White são igualmente inspirados e tem a mesma autoridade. Pode parecer algo sem tanta importância, já que tantos pastores escrevem livros, mas estas publicações são puramente devocionais e não doutrinários, não acrescentam dogma algum a fé ou estabelecem outro fundamento para a salvação além de Cristo, o que ocorre nos escritos de Ellen G. White.

Além dos elementos fundamentais da confissão de fé, há outras crenças em que toleramos na convivência com outros grupos cristãos por não se tratarem de temas fundamentais a salvação do homem. Um exemplo é a predestinação absoluta e incondicional, que sugere que Deus escolhe quem será salvo sem que a ações do homem tenham influência alguma nesta escolha, como pregam os presbiterianos, enquanto nós cremos na eleição, ou seja, que a ação do homem em crer no evangelho e viver segundo ele faz com que Deus lhe conceda a salvação na pessoa de Cristo. Num primeiro momento, ambas as interpretações possuem fundamento nas escrituras e não ferem a crença de que a salvação é dada por Deus mediante o sacrifício de Cristo, logo essa diferença de interpretação nos distingue, mas não nos separa. Claro que há outros pontos divergentes entre presbiterianos e assembleanos, mas fogem completamente ao escopo deste texto.

Disse que a nossa história forma nossas crenças, que nossas crenças formam nossos valores e que nossos valores determinam nossas ações. Cremos, comprovando-se através da história, que os dons do Espírito Santo são atuais e necessários para igreja e, logo, devem ser algo de grande valor para os fieis, contudo cada vez sua manifestação se torna mais escassa. Da mesma forma, se cremos que é possível e necessário ter uma vida santa, o que entendemos por afastar-se do pecado em suas mais diversas formas, o que implica em viver na contramão da sociedade que é fundamentalmente hedonista, é um contra censo ver a igreja se tornando cada dia mais permissiva e próxima dos costumes hodiernos. Acredito que qualquer crente que se considere fiel e sincero deva se debruçar sobre este fato e questionar o por que da igreja, e por consequência dele mesmo, não estar refletindo em suas ações aquilo em que crê. Alguns dirão que é por desconhecimento, outro por falta de maturidade espiritual e outros por simples discordância, mas fato é que se não vivemos segundo a fé que professamos nos fazemos mentirosos.

Doutrinas versus usos e costumes

Se você crê somente no que gosta do evangelho e rejeita o que não  gosta, não é no evangelho que você crê, mas, sim, em si mesmo.
Agostinho

 “Qualquer ensinamento que não se enquadre nas Escrituras deve ser rejeitado, mesmo que faça chover milagres todos os dias.
Martinho Lutero

Nosso credo, a linha teológica que seguimos para interpretar a Bíblia, nossos costumes e tradições são elementos idiossincráticos, compondo nossa identidade, nossa doutrina.

Uma doutrina primeiramente é qualquer tipo de ensino, e de forma mais elaborada, o conjunto de princípios que servem de base a um sistema ideológico, seja religioso, militar, político, filosófico ou qualquer outro. Portanto, tudo o que é ensinado dentro de um grupo faz parte de sua identidade e compõem sua doutrina. Sendo assim, é uma incorreção considerar doutrina unicamente os mandamentos contidos na Bíblia, mas tornou-se comum entre nós o termo “usos e costumes”, ou simplesmente “costumes”, para identificar os ensinos que são fruto da tradição cultural e histórica da igreja. O termo “usos e costumes” é melhor conceituado pelo direito, que diz serem as práticas habituais em determinado lugar, com natureza de normas gerais, que suprem a omissão da lei e se incorporam ao direito fundado nos costumes, na prática, e não nas leis escritas. Não há mal algum em distinguir-se os conceitos, mas há o perigo de entendermos que os tais usos e costumes são tão menos importantes que deixam de constituir a identidade de um grupo, o que é um erro.

Outro erro precisa ser destacado. A luz dos exatos conceitos, o que chamam-se de usos e costumes na verdade, já que são deliberações das Convenções Gerais, constituem a norma institucional a cerca de assuntos que em dado momento possam influenciar a identidade e unidade da igreja. Saudar um irmão em Cristo com a “a paz do Senhor” é um costume, porque não há norma institucional nem ordenança bíblica expressa sobre isso, já o homem não usar cabelo crescido, além de presente nos ensinos de Paulo e ser um traço cultural brasileiro, fez parte das deliberações da Convenção Geral em 1975, constituindo norma para a instituição.

É indiscutível que as ensinos bíblicos são perfeitos, imutáveis, infalíveis e inquestionáveis e que as normas, os chamados “usos e costumes”, por estarem vinculadas a um grupo em um certo momento, são imperfeitas e transitórias. Contudo, citando Aiden Wilson Tozer, pastor norte-americano, “o propósito que está por trás de toda doutrina é garantir a ação moral”, em outras palavras as normas são instituídas para evitar que sejamos levados a agir de forma conflitante com nossos valores e portanto são necessários para reforçar nossa ética e perpetuar nossa identidade institucional.

Uma norma não é imposta arbitrariamente. Como uma expressão da moral, ela surge como resposta a ameaças as crenças e valores que norteiam aquele grupo ou para manutenção de seu bem-estar e acompanha a evolução cultural. Um exemplo claro pode ser visto na deliberação da Convenção Geral em 1975 sobre a abstinência do uso de aparelhos de televisão, onde a justificativa apresentada foi “a má qualidade da maioria dos seus programas […], inclusive, por conduzir a eventuais problemas de saúde”. Dado ao crescimento dos meios de comunicação, a “abstenção do uso” foi alterada em 2011 para “abstenção do mau uso” e ainda diz que os pastores “deverão orientar seus fiéis quanto aos programas veiculados na TV brasileira ou em qualquer outro de imagem e som, os quais venham provocar distorções litúrgicas e confusões teológicas”, contudo manteve-se a norma sobre homens não terem cabelo sem alteração.

Há quem argumente que nossas normas foram construídas sobre a influência da igreja escandinava, uma vez que nas duas primeiras décadas a maioria dos pastores presidentes eram estrangeiros, porém em 1929 inicia-se um movimento para transferência da direção das igrejas para pastores brasileiros que queriam maior participação nas decisões e mais autonomia. Já em 1930 a Convenção Geral foi presidida pelo pastor Cícero Canuto de Lima, então presidente da Assembleia de Deus em Natal. Essa transferência de comando reflete em mudança doutrinárias, como por exemplo quanto ao uso do cálice coletivo na celebração da Ceia que se manteve seguindo a tradição escandinava dos fundadores até 1935, quando houve uma deliberação favorável ao uso de cálices individuais.

O que em geral dificulta a observação das normas, bem como das doutrinas puramente bíblicas, é o desconhecimento de nossas crenças e valores ou a falta de se apropriar deles como verdade. Se nossos valores não estiverem claros nossa moral será duvidosa e nossos atos refletirão isso.

Identidade institucional: uma questão mais relevante 

“Não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais; somos também, o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que  trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos…”sem querer””
Sigmund Freud

Entende-se por identidade o conjunto de características que diferenciam indivíduos uns dos outros, distinguindo-os de alguns e assemelhando-os de outros. Estas características não se restringem ao que é aparente, mas engloba suas ideias e ideais, e são sempre percebidas através da comparação com o outro. Identidade é a expressão de quem se é, de como somos vistos pelos outros.

A identidade não esta limitada a pessoas, também se aplica a instituições. Afirma-se que a identidade institucional é “a expressão que confere personalidade e traduz o que se considera ideal para a instituição, representada nos conceitos de missão, visão e valores, onde missão define a razão da existência; visão, a situação desejável para o futuro; e os valores constituem a base de tudo o que se acredita como certo e adequado”. Como qualquer instituição a igreja também tem uma identidade.

Se entre os vários significados possíveis para igreja, pudermos dizer que ela é o grupo de pessoas formado por aqueles que decidem seguir a Cristo, como cada dia se torna mais difícil identificarmos a imagem de Cristo na igreja, fica claro que a igreja no Brasil passa por uma crise de identidade. A diversidade de credos é facilmente vista pela falta de uniformidade no discurso, não só sobre as questões de práticas sociais e litúrgicas, mas principalmente quanto a verdades fundamentais da fé. Esta falta de uniformidade, e porque não dizer de unidade, não acontece apenas entre denominações, mas também dentro de uma mesma denominação, e de forma mais sensível entre as pentecostais, das quais as Assembleias de Deus são as que mais sofrem por serem a maior denominação evangélica no Brasil, não tendo a maioria absoluta entre os evangélicos apenas no estado do Rio Grande do Sul, onde fica em segundo lugar, atrás apenas dos luteranos, o que é facilmente entendido a luz da história da nossa colonização. É sem dúvida um gigante, mas, como acontece com o boi, é levado de facilmente de um lado para outro por desconhecer qual é a força que tem.

Quando fala-se sobre identidade das Assembleias de Deus logo vem a mente os chamados usos e costumes, quando na verdade estes são uma parte pequena de nossa identidade, mas que acabam afastando da discussão questões mais relevantes. Somos o que pensamos, logo nossas crenças e valores são que determinam nossa ações e não ao contrário, mas o que vemos são pessoas tentando curvar nosso eixo moral para se adequar aos modismos da sociedade atual, que é guiada por valores humanistas, essencialmente os mesmos da renascença do século XVII, que colocam o homem e seu bem-estar como centro de todas as coisas e acima de qualquer propósito ou interesse de qualquer divindade. Em outras palavras, é retirar Deus de seu trono e assentarmos sobre ele, fazendo do Senhor nosso servo. A teologia liberal, confissão positiva e o determinismo são exemplos claros dessa prática nociva que vem deturpando nossa moral e descaracterizando nossa imagem. Não é a toa que somos advertidos a não nos conformarmos ao presente século nem nos envolvermos com as coisas desta vida a ponto de nos deixarmos seduzir por elas.

Corte de cabelo, uso de barba, ir à praia ou ao cinema, uso de minissaia e short, jogar futebol e outras práticas esportivas tem sido discutido nos últimos anos e apresentados como fatores que afastam as pessoas das igrejas que preservam estes costumes. A ênfase dada a estes temas desvia o olhar de outras práticas que fizeram das Assembleias de Deus o que são hoje e que estão sendo desprezadas. Infelizmente discutimos muito o efeito e muito pouco as causas. Os longos períodos de oração, que levam a uma comunhão mais intima e profunda com o Senhor, as ações evangelísticas individuais e coletivas, em pequena e grande escala, a leitura bíblica constante, que aumenta nosso conhecimento do Senhor e nossa segurança em suas promessas, a preferência por estar junto com os irmãos, tanto nas reuniões no templo, como nas casas, sempre com oração e louvores e com um tratamento cordial e amável, que demonstra que somos verdadeiros discípulos de Cristo, a veracidade e tranquilidade no falar e agir e a busca pela santidade, que dão poder para testemunhar do evangelho, uma posição bem definida frente aos questionamentos dos de fora, a crença da autoridade absoluta e infalibilidade das Escrituras, a manutenção da autoridade paternal e dos valores familiares, a simplicidade no vestir, sempre fugindo da sensualidade, a certeza de que viveremos a eternidade com o Senhor e para isso devemos ter uma vida digna como servos, e tantas outras características que sempre foram a distinção entre os evangélicos, e em especial dentro das Assembleias de Deus,  e os demais grupos cristãos. Infelizmente pouco desta pequena lista pode ser visto nas igrejas de hoje, o que leva a uma outra indagação, “somos quem achamos que somos?” Parece que alguns que estão descontentes com o exterior não questionam o seu estado interior, que é muito mais preocupante.

Como qualquer grupo, as Assembleias de Deus devem questionar constantemente suas práticas, buscando afinar-se não com o padrão da sociedade, mas com o padrão que o Senhor propôs a igrejas, que é Cristo. Muitas práticas se modificaram ao longo dos anos, enquanto outras se mantiveram. Em sua maioria, esta manutenção serve para afastar o mundanismo que insistentemente e sem descanso procura entrar na igreja. Esta entrada se dá de forma sutil, sem alardes, através de ideias simples e aparentemente sem mal algum, mas que fomentam mudanças não para o melhor e sim para o pior. No campo da liturgia o surgimento dos ministérios de dança, que são um esforço de trazer para o culto algo que eu gosto sem me questionar se é o que o Senhor gosta, quando as Escrituras apontam como elementos do culto cristão apenas salmos, hinos, cânticos, doutrinas, revelações e profecias. Nas relações pessoais a superexposição e desejo pela fama tem levado muitos jovens a publicar nas rede sociais fotos sensuais ou com elementos de sensualidade, seguindo o que vemos na mídia em geral. Ambos os exemplos demonstram os ideais humanistas, em especial o hedonismo, invadindo as igrejas.

Sob a ótica humana, ninguém é obrigado a servir a Cristo em uma igreja específica, mas aqueles que querem servir são chamados a obedecer, o que não lhe priva o direito de questionar quando o intuito é entender para obedecer com alegria ou apontar necessidades de melhorias, e não impor mudanças sem nem conhecer os processos que conduziram a igreja até aquele momento. Sempre deve haver espaço para o questionamento e divergência de ideias, o que devemos evitar, além da intolerância cega, e permitir que nossa visão seja obscurecida por nossos desejos e deixarmos de buscar o melhor para a igreja, sobretudo a longo prazo, afundado na permissividade desregrada. Também não podemos nos perdemos em questões superficiais e sem nos aprofundarmos no que é mais relevante. Um caminho para evitar essas coisas é distinguir desejo de necessidade. Veremos que entre as doutrinas das Assembleias de Deus, como em qualquer igreja, nenhuma necessidade humana é prejudicada, mas os desejos sempre ficam submetidos a vontade de pertencer ao corpo de Cristo ali presente.

Enumerar todos os costumes e defendê-los ou questioná-los não é o objetivo deste texto, mas chamar a atenção do leitor para o maior dos problema que a igreja está enfrentando: estamos deixando de ser a igreja idealizada por Cristo para atender aos ideais do mundo e se não revertermos isso a tempo não só deixaremos de cumprir nosso papel para com a sociedade, que é de anunciadores do evangelho e ser a última reserva moral, como também deixaremos de ser a noiva amada do Cordeiro e logo não nos restará esperança alguma em Deus. Oremos para que o Senhor nos livre desse tão trágico final e nos reconduza a condição de eleitos pela sua graça.

2 comentários sobre “Assembleia de Deus: muito mais que usos e costumes

    • Uso e costume foi o termo criado com o passar dos anos. No início era doutrina. Tudo é baseado na Palavra e cada igreja tem sua doutrina baseada na interpretação da Palavra. É fácil entender quando comparamos a igreja a pessoas. Toda pessoa tem a sua identidade, suas características, sua personalidade. A igreja não é diferente.

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